Suleiman Abdel Mane, 42 anos, residente em Mocímboa da Praia, norte
de Moçambique, deu de caras com homens armados à porta de casa na
madrugada em que um grupo atacou os postos de polícia da vila.
"Tinham catana, faca e metralhadora e um disse para eu não ter medo porque eles só andavam atrás da polícia", recorda.
Quatro elementos deste grupo chegaram à esquadra da Polícia da
República de Moçambique (PRM) em Mocímboa no início da madrugada de
quinta-feira, 05 de outubro, vestidos de túnica, fingindo que iam
entregar um ladrão de bairro - dois deles seguravam um outro.
Quando o agente de serviço puxava a cadeira para iniciar o registo da
ocorrência, houve um que levantou a roupa e puxou por uma catana que
trazia escondida, desferindo um golpe na cara do polícia - enquanto os
outros três imobilizaram o resto dos elementos que estavam na esquadra.
Na altura em que outros agentes, em missão nos bairros, tentaram
socorrer os colegas, já tiveram que enfrentar o fogo das metralhadoras.
Era cerca da 01:00 da madrugada e tinha início uma série de
confrontos na vila e arredores, na província de Cabo Delgado, norte de
Moçambique, que se prolongaria de forma intermitente por 48 horas e que
obrigaria à mobilização de reforços.
Os acessos à vila foram fechados pelas autoridades, instituições e
serviços (como escolas e bancos) não trabalharam e a população ou fugiu
para o mato ou escondeu-se em casa, opção esta de Suleiman e família.
"Foram dois dias sem ir buscar comida à rua" e em que ele, a mulher e dois filhos, remediaram-se como puderam.
Segundo os números oficiais, morreram dois polícias e 14 atacantes -
sendo o mesmo grupo armado suspeito da morte de mais quatro homens das
autoridades num outro confronto ocorrido na quinta-feira, em Maculo,
aldeia a norte, em que terão sido também abatidos sete agressores.
Só o tempo dirá o que o mato esconde, mas a promessa feita à
população de não lhe fazer mal quebrou-se, com a morte de um secretário
de aldeia e com ferimentos causados noutras pessoas, relata o
administrador do governo de Mocímboa da Praia, Rodrigo Puruque.
O filme dos acontecimentos foi pela primeira vez revelado ao público
em detalhe por aquele responsável num discurso, no final de uma marcha
de repúdio contra a violência, realizada na vila, no dia 12.
A população tem testemunhado dizendo que "os bandidos" são jovens
islâmicos que frequentavam uma mesquita em construção no bairro de
Nanduadue, em Mocímboa da Praia, onde já mais ninguém ia, senão eles,
dada a postura insurgente dos sermões que ali se ouviam.